A MAIS BELA CHEGOU
O fino mármore das
escadas conduzia os visitantes ao interior do luxuoso prédio. Lá fora, do outro
lado da rua, o burburinho das crianças, desembarcando do ônibus escolar,
anunciava mais uma visita ao museu egípcio.
Dentro do edifício antigos
objetos, réplicas de originais egípcios, roubavam a atenção dos visitantes,
entre eles quadros, objetos de uso pessoal de faraós, papiros, jóias e uma
grande quantidade de imagens, além da cópia fiel da pedra de Roseta.
A parte externa,
cuidadosamente ornamentada por jardins temáticos, exibia entre outras atrações,
os pés da planta do papiro, parada obrigatória para os grupos de estudantes e
seus professores de história.
Naquele dia após sua
caminhada entre as finas e elegantes estantes de vidro, Padre Amarna,
frequentador assíduo do museu, deteve-se por algum tempo observando as crianças, que acabavam de adentrar a sala, ansiosas por conhecerem a múmia que havia em
exposição e que veio diretamente das tumbas da terra dos faraós.
Um pequeno garoto
vestindo uniforme escolar aproximou-se do silente padre e estendeu-lhe um
aparelho celular afim de que registrasse no aparelho a fotografia dele junto ao
busto do Faraó Aquenáton.
O Padre Amarna
sorridente e educado como era seu modo de ser, acertou o foco e eternizou o
momento com o esperto e satisfeito menino. Ao conferir o registro fotográfico à
palidez tomou conta de seu rosto, o padre com mãos trêmulas deixou cair o
aparelho telefônico e girando o corpo apressado saiu correndo pelo corredor até
encontrar a porta larga da saída do prédio.
Já na rua, o padre
assustado buscava nos bolsos do casaco a chave do carro, e atordoado, não
lembrava o local exato do estacionamento do veículo.
Um último olhar para o
prédio do museu e avistou na porta o menino segurando o celular e observando seu
tempestuoso afastamento.
A Rua no Bairro
Bacacheri, sedia o prédio do museu egípcio, e é uma rua estreita e bem cuidada,
com árvores e pássaros, próximo ao museu localiza-se o Parque Bacacheri.
Padre Amarna costuma
frequentar as dependências daquela instituição e também caminhar pelo parque em
nome da saúde física e mental que a atividade física proporciona.
Aquela manhã, Amarna
chegou a sua casa (Paroquial), transtornado. Entrou e foi diretamente para o
banheiro, deixou a água cair em seu corpo, olhou-se no espelho e temeu pelo que
poderia lhe acontecer. Seu corpo revelava um homem saudável de meia idade, habitualmente depilava todo o corpo enquanto tomava banho, e naquele dia cumpriu
seu ritual pela segunda vez.
Dona Angélica, uma
senhora quase idosa, como ela mesma dizia, era a funcionária da casa e do
padre, cuidava da sua roupa, da limpeza e da alimentação. Também cuidava da
vida íntima do padre Amarna, pois sabia que o sacerdócio poderia correr riscos
frente ao assédio feminino que o charmoso padre sofria constantemente.
Vigiava quase tudo,
afinal não tinha acesso a tudo que se referia ao sacerdote.
A paróquia de Amarna
era tranquila, suas obras sociais rendiam fama de homem caridoso e líder
religioso atuante, há anos que ele havia reformado a Igreja e agora terminado a
reforma da casa também. Dona Angélica estava satisfeita com as mudanças e novos
acessos que facilitavam bastante seu trabalho diário.
O padre após o banho e
mais um café, em torno de 11h00min da manhã foi até a sacristia, cuidar de
alguns papéis e resolver alguns problemas, antes, porém, passou alguns minutos
orando em frente ao altar e à imagem de Jesus Cristo na cruz.
Após o almoço parecia
ainda nervoso e deitou-se um pouco, pediu à Dona Angélica que não o acordasse
como de costume, alegou que tomou um calmante e um analgésico e precisava
descansar.
As 16h00min seu
celular já havia tocado inúmeras vezes e Dona Angélica estava preocupada, mas
não queria descumprir as ordens, pois sabia que ele era exigente quanto a isso.
Encostou o ouvido na porta e ouviu um barulho de papéis sendo manuseados vigorosamente,
sentiu um alívio porque entendeu que ele estava acordado e fazia algo dentro do
quarto, neste caso foi para a cozinha fazer o café da tarde e assim teria um
pretexto para bater na porta dele em breve.
O aroma do café fresco
se espalhou pela casa no fundo da igreja e deve ter aguçado até os santos no
altar, a bandeja na mão com a xícara dele e o adoçante posicionado, partiu Angélica
em direção ao quarto.
- Padre, seu café está
pronto. Posso entrar?
Segundos depois a
chave girou na fechadura, a porta lentamente se abriu um vento gelado escapou e
correu pelo corredor escuro, deixando a funcionária de cabelo em pé. Junto com
o vento um odor estranho, que ela nunca havia sentido antes.
Lentamente foi
aparecendo de trás da porta o rosto do padre, que sorriu e pegou de suas mãos a
bandeja.
-Obrigada Angélica.
A porta se fechou
quase apertando o nariz da curiosa mulher que pulou para trás resmungando:
-Credo, que
“malcriado”, devia pedir desculpas.
-Malcriada é você, já
falei que não tente entrar em meus aposentos sem ser convidada ou sem eu ter
deixado a porta aberta para você fazer a limpeza.
-Hummm, mas pelo que
vi a bagunça desses papéis está grande aí dentro, uma última espiadela pelo vão
que ainda estava aberto, e a porta se fechou bem a sua frente.
-Esse cheiro de coisa
velha, deve ser tudo papel antigo que ele guarda naquelas gavetas trancadas.
- Vou recolher a roupa
e passar um produto nesse corredor para eliminar esse fedor.
As 18h00min Dona Angélica,
de banho tomado, cabelo penteado e preso num coque e sua sacolinha de crochê,
bateu a porta novamente e ouviu a voz do padre:
-Sim dona Angélica,
pode ir. Até amanhã.
Angélica antes de sair
chamou Amenotep o gato, e deu ração, também trocou a água do bichano. Naquela
tarde Amenotep estava assustado e não desceu do pé de manga que tinha no
quintal da casa paroquial.
-Que gato esquisito
esse, deve estar querendo caçar passarinho para não se importar com a ração,
nunca recusou... enfim... Que fique aí.
Dona Angélica como era
de costume, antes de ir embora foi até a nave fazer sua oração do dia. Os
afazeres eram tantos diariamente que deixava seu compromisso com o altíssimo
por último.
Ao entrar na Igreja,
percebeu uma mulher muito fina e elegante sentada no primeiro banco, bem
próxima ao altar, se sentiu meio incomodada pelos trajes que usava, estava
saindo do trabalho e encontrou uma senhora tão sofisticada e cheirosa ali,
resolveu sentar mais afastada para não ser notada.
O perfume era bom e
alcançava Angélica muitas fileiras atrás, um cabelo preto sedoso e brilhante
estava preso na cabeça pequena e delicada. Ao passar por ela notou um resto
moreno queimado pelo sol, da praia talvez, e maquiada com muito capricho. O
pescoço ornamentado por jóias brilhantes concordavam com os brincos de pedras
azuis.
Angélica pensou:
-Tanta gente fina e
rica e outros com pouco ou quase nada. Mas aqui é a casa do Senhor e todos
devem ser acolhidos.
-Ave Maria, cheia de
graça, o senhor... que roupa é aquela? Tecido macio acha que foi feito pra ela.
-Santa Maria mãe de Deus.
que sapato lindo!!! Ai meu Deus perdão, mas eu amo sapatos.
-Bem que o Senhor
poderia me dar uma forcinha na loteria, o Senhor sabe que eu ajudaria muita gente
pobre se ganhasse uns milhões.
- Pai Nosso que estais
no céu... Santificado seja.. A cor é linda! Sempre gostei de Tailleur, sou
pobre, mas conheço , vi na TV num desfile.
-Venha a nós o vosso
reino, seja feita... vou comprar o tecido e fazer um igual.
-Amém.
Depois do ritual da
saída da Igreja, passou novamente e discretamente ao lado da mulher chique e
elegante e olhou mais uma vez o modelo da roupa, o sapato, a bolsa, as jóias...
A mulher permanecia
imóvel, olhos fechados, concentrada.
Angélica,
desdenhosamente pensou:
- Vai rezando e
agradecendo mesmo, tem “de um tudo”, francamente Deus eu não entendo esses teus
desígnios.
-Perdão Senhor.
Foi embora fazendo as
contas de quanto ficaria um metro e meio de tecido pra fazer um vestido igual.
A manhã seguinte
estava calor logo cedo, algo que em Curitiba não era comum, mas o verão aquele
ano estava com a temperatura mais elevada que a normal Dona Angélica, veio
tentando lembrar o nome do fenômeno que o bonitão do Jornal falou que era: Nina
La Na, Ninho, enfim. Era um desses.
Ônibus lotado, mas
como ela pegava na saída do primeiro terminal vinha sentada na frente, perto do
motorista, e na janela.
Desceu no terminal e
pegou outro para chegar ao trabalho.
Finalmente chegou,
contornou a Igreja e alcançou a porta da cozinha da casa, girou a chave na
fechadura e entrou.
O silêncio aquela
manhã estava mais profundo, o comida do gato estava intacta, um misto de
cheiros, mofo e perfume.
Colocou a água para
ferver e foi comprar o pão na padaria ao lado.
Quando voltou passou o
café e arrumou a mesa, já eram 08h30minh e o Padre Amarna ainda não tinha
aparecido na cozinha.
Angélica resolveu
bater na porta do quarto, dirigiu-se ao escuro corredor e percebeu a porta
entreaberta, um raio de luz saia do quarto do padre, achou estranho e diminui o
ritmo dos passos.
Empurrou a porta o e
horror tomou conta de seu ser.
Angélica gritou um
grito alucinado e desmaiou.
Acordou, com um
movimento intenso em torno de si, homens fardados, duas mulheres policiais, o
assistente do padre, um rapaz da paróquia, duas carolas, um jornalista, câmeras
fotográficas, gente falando ao celular, um caos.
Angélica, levantou a
cabeça e seu estômago revirou, teve ânsia ao lembrar a última imagem que viu e
caiu sentada novamente ao sofá da sala.
-Senhora, chama-se Angélica
é isso? Perguntou um policial.
-Sim, mal conseguiu
responder.
- A senhora viu Padre
Amarna pela última vez ontem, que horas?
- Foram tantas
perguntas que sua cabeça girava, não consegui parar de recordar aquela cena
terrível.
-Coitadinho do Padre
Amarna, chorava enquanto respondia as perguntas.
-Ele não merecia isso,
tão bom que era.
Uma das carolas veio
sentar ao seu lado e consolá-la. Comunicamos as autoridades da Igreja, logo
chegarão.
-Por que fizeram isso?
Assalto?
-Não. Parece que foi algo
pior.
-Dilaceraram seu peito
e...
-Arrancaram seu
coração! Falou a senhora Rosa, quase se afogando em lágrimas também.
-Levaram seu coração!
Em Curitiba não se
falava de outra coisa a consternação foi geral na cidade, todos comentavam, os
meios de comunicação noticiavam sem parar o sinistro:
Faleceu esta noite na
capital o Padre Gabriel Moisés Amarna. Conhecido como padre Amarna, era um
religioso atuante na sociedade, suas obras assistenciais reconhecidas
internacionalmente.
E as reportagens sobre
sua vida “estartavam” em todos os telejornais, rádios, internet e de boca em
boca o crime do Padre Amarna foi sendo divulgado.
Hipóteses eram
levantadas, mas devido às circunstâncias do crime, foi afastada possibilidade de
um latrocínio.
A crueldade de ter
dilacerado o corpo para retirar do peito o coração do padre era um mistério que
a polícia teria que desvendar para dar uma satisfação à sociedade que se
encontrava perplexa diante da brutalidade do crime.
As investigações
seguiam e aparentemente nada de novo após quase um mês depois da tragédia.
Depois que a casa foi
liberada pela perícia criminal, Dona Angélica voltou para sua rotina, cuidava
de tudo e recebeu o novo pároco. Um rapaz bem jovem recém ordenado padre foi
designado para assumir as funções à frente da paróquia.
Dona Angélica, cuidava
para que se sentisse bem, arrumou o outro quarto para o novo Padre, de nome Francisco.
-Os primeiros dias
foram muito difíceis, queixava-se ela para Padre Francisco da falta do velho
amigo, mas aos poucos foi se conformando e acalmando, com as palavras de fé e
conforto de padre Francisco.
-O senhor, Padre
Francisco, é uma benção.
Francisco tinha
hábitos diferentes do antigo pároco, não havia entre eles a mesma intimidade e
cumplicidade que Angélica, devido ao tempo de trabalho, possuía com Amarna,
mesmo o gênio dele era muito diferente, mas Angélica fazia o que podia para agradá-lo.
Tinha que comparecer à
polícia para depor e muitas vezes o fez. Eram tantas perguntas, que os
policiais faziam, tantas vezes viraram e reviraram as coisas do padre Amarna,
em busca de pistas, muitos maledicentes da cidade sussurravam infâmias sobre o
pobre falecido servo de Deus, tudo feria muito o coração de Dona Angélica.
A família do padre
morto recolheu o que lhe era de direito e voltou para o interior carregando a
dor e as lembranças de seu ente querido.
O tempo passou quase
três meses e ainda nenhuma solução para o caso.
Angélica chegou mais
cedo aquela manhã, pretendia fazer uma faxina geral, ainda sentia o cheiro de
mofo que vinha do quarto do Padre Amarna.
Retirou cortinas,
colchão, tapetes, abriu os armários, lavou todo o banheiro de cima a baixo,
deixou o vento entrar e o sol, que naquele dia, apareceu meio tímido no céu.
Um raio de sol
iluminou o armário que ela havia deixado aberto para ventilar, resolveu passar
um produto de limpeza que conservasse o perfume de lavanda dentro da peça,
passou em toda a parte externa e na empolgação decidiu lustrar também a parte interna
para perfumar a madeira.
A réstia de sol batia
no fundo, e no chão do móvel algo chamou sua atenção, parecia um trincado na
madeira, um pedaço quebrado, e sem entender muito bem o que era aquilo tentou
com a unha levantar, percebeu que era uma tábua solta e buscou uma ferramenta
na dispensa, alavancou a tábua do fundo do armário e percebeu que tinha
descoberto algo secreto.
Uma caixa dourada com
uma pequena fechadura e uma chave. Parecia pesada, estava acomodada no fundo
falsa do armário embutido, muito bem camuflada, devia estar ali há muito tempo.
Dona Angélica pensou
por alguns segundos: Como nunca percebi isso antes?
Talvez porque ele não
gostava que eu mexesse no seu armário e as poucas vezes que limpei este móvel
ele esteve presente palpitando e me atrapalhando a faxina, pensava a curiosa
Angélica.
Mas agora, o que faria
com aquele achado?
-Abro esta caixa ou
chamo delegado Adriano? O Dr. Adriano vai gostar de ver isto, pode ser uma
pista.
Por algum tempo ficou
sentada no chão com a caixa apoiada nas pernas cruzadas ponderando.
Por fim resolveu
guardar de volta o objeto e pensar melhor no que fazer.
Os dias se passaram e
Amenotep que havia sumido desde aquela noite terrível reapareceu, pediu comida
e depois foi para o quarto, como era de costume, e deitou-se em cima da cômoda
ao lado do armário.
Dona Angélica aquele
dia sentiu medo do gato, algo estranho em seu olhar lhe causou calafrios.
Fechou o quarto meio ressabiada, terminou todo o trabalho e foi para casa.
Padre Francisco aos
poucos foi se adaptando e já tinha até seu séquito carolistíco, como dizia
Angélica, as velhinhas carolas que se metiam em tudo e disputavam o grau de
importância nas missas e demais eventos paroquiais.
Dona Angélica, depois
de seis meses do ocorrido ainda sentia um medo de entrar na casa sozinha, e a dor não parava de doer em seu coração,
assim explicava a quem perguntasse. A saudade do amigo só aumentava e foi por
isso que resolveu buscar a caixa dourada e descobrir o que tinha dentro.
Teria que esperar
Amenotep sair do quarto, porque ele estava cada dia mais vigilante, que gato
miserável pensava Dona Angélica.
-Parece que esse gato
vigia a caixa, mas hora ou outra ele sairá tenho fé.
Dito e feito uma manhã
fria, o sol deu o ar da graça na capital paranaense, e Amenotep não amanheceu
no quarto, tinha saído sabe Deus para onde.
-Agora é à hora, vou
buscar a caixa dourada do Padre Amarna, pensou Angélica.
-Aquele gato do
“Djanho” não está por aqui. Obrigada Jesus pela cobertura.
Foi rapidamente até o
móvel e com uma chave de fenda deslocou a tábua, cuidadosamente retirou o
objeto e fechou novamente o esconderijo. Era hora da missa e o Padre Francisco
demoraria para voltar.
Foi para seu quartinho
e trancou a porta.
Agora vou ver tudo o
que ele deixou tão escondido.
Girou a pequena chave
na abertura e aos poucos foi abrindo a caixa dourada, era uma decoração muito
delicada, com hieróglifos e desenhos destes que os egípcios faziam nas tumbas e
paredes, ela tinha visto isso em algum lugar.
Aos poucos aquele
cheiro horrível de mofo e papéis velhos sufocou sua respiração, tossiu,
engasgou, sentiu entrando nas narinas uma espécie de pó fino.
-Que horror isso!
Mas aos poucos foi
acostumando, com os olhos vermelhos e irritados, ajustou os óculos de leitura e
começou manusear o conteúdo da caixa dourada.
Livros muito antigos,
pergaminhos, papiros com desenhos coloridos, escritos com aquelas letras
egípcias, eram hieróglifos pensou ela.
Muitas coisas, que ela
não entendia.
Um papiro no fundo com
um desenho chamaram sua atenção.
-Parece um rei, espera
não, lá no Egito chamam faraó, uma vez o Padre Amarna me explicou isso.
- Os faraós eram “meio
que” deuses.
- Outro papiro! com o rosto de uma... Seria... faraoa, acho
que a mulher é rainha mesmo.
-Uma rainha! Esta mulher!
Meu Deus! Por todos os deuses do Egito!
-Esta aqui...
Pensou, pensou... Angélica
tentava lembrar onde teria visto aquele rosto antes, sabia que já tinha visto
aquela mulher que estava ali desenhada naquele velho papiro.
Depois de algum tempo,
Angélica finalmente lembrou-se de onde conhecia a misteriosa mulher:
-Santo Deus dos
esquecidos, lembrei!!!
-É a mesma mulher.
Esta aqui é aquela que estava na Igreja o dia que o Padre Amarna morreu!
-Sim, é ela mesma,
tenho certeza.
-Aquela roupa, aquele
sapato, toda chique e linda. O mesmo rosto.
Dona Angélica, ouviu o
arrependimento sussurrar em seu ouvido: Por que você é tão curiosa Angélica?
- E agora o que farei?
Conto para o Dr. Adriano, e se ele achar que estou escondendo mais alguma
coisa?
- Que situação!
Por hora vou levar
esta caixa comigo, depois penso melhor no que fazer.
Aquele dia foi para
casa um pouco mais cedo, pelo caminho teve a impressão de ver Amenotep pelo
menos umas três vezes em locais distantes um do outro em curto espaço de tempo.
-Confessa Angélica:
Você está com medo. Pensava no trajeto para casa.
Pegou o celular e
ligou para sua amiga Lúcia pediu a ela para dormir em sua casa aquela noite.
Lúcia disse que não
poderia ir, mas que Angélica fosse dormir na casa dela, afinal tinha que cuidar
do netinho para sua filha trabalhar.
Angélica concordou e
no caminho trocou de ônibus, mudou o rumo e foi para a casa de Lúcia.
Passaram a noite
conversando, mas Angélica não falou nada sobre o que encontrou e nem sobre seu
medo.
No dia seguinte voltou
ao trabalho, Padre Francisco já esperava com o café pronto e já tinha feito
seus exercícios matinais antes de ir realizar a missa.
-O que há Dona
Angélica, está doente?
-Não padre, estou bem,
apenas um pouco cansada hoje, dormi mal.
-Eu também, esse gato
da senhora, passou a noite fazendo barulhos estranhos do lado de fora da casa,
parecia algo assustador, cheguei abrir a janela e ralhar com ele.
-Depois desapareceu e
não o vi hoje.
-Graças a Deus!
- O que disse Dona
Angélica?
- Nada não padre,
graças a Deus agora está tudo calmo.
Angélica, tremendo de
medo de e supondo ter mexido em alguma coisa que parecia perigosa e estranha,
tomou café com um olho na porta outro na caixa, temia que o gato aparecesse e a
atacasse.
-Esse peste deste gato
parece que sabe de alguma coisa que eu não sei, parece que vigia esta caixa.
-Acho que o medo é que
está produzindo estas besteiras na minha cabeça, vou trabalhar.
-Começou a limpeza do
quintal e debaixo do pé de manga quando se virou para apanhar o saco de lixo a
fim de acomodar as folhas que caíam da árvore, se deparou com a mulher
misteriosa bem à sua frente e Amenotep no colo.
Com o susto derrubou o
balde, a vassoura e escorregou no saco plástico do lixo.
O coração de Angélica batia
descompassados, os olhos arregalados e a respiração acelerada.
Amenotep não parecia
ameaçador como antes, estava acomodado nos braços da jovem e bela mulher.
-Quem é a senhora?
Indagou Angélica.
-Quer alguma coisa?
-Posso ajudar?
Perguntou uma Angélica atrapalhada e ofegante.
-Pode e deve.
-Vim buscar algo que
me pertence e que está com você.
Não entendo o que diz.
-Entende sim, vá
buscar a caixa que retirou dali do quarto dele.
A voz era quase
metálica, com um jeito de falar muito estranho, um sotaque que Angélica nunca
ouviu.
Gaguejando, a única
coisa que ousou falar foi:
-Vou buscar sim
senhora, desculpa.
Foi até o quarto
rezando para que o Padre Francisco milagrosamente aparecesse ali e aquela
mulher assustadora sumisse, apanhou a caixa dentro da sacola e tremendo voltou
ao quintal.
A mulher tirou os
óculos escuros e deixou a mostra um par de olhos misteriosos, nem parecia gente
de verdade, eram belos, mas assustadores, as mãos delicadas, os gestos precisos
e como num passe de mágica Angélica já não tinha mais em suas mãos a misteriosa
caixa.
Com aquela voz
marcante mandou que Angélica permanecesse calada e não falasse a ninguém o que
encontrou no quarto do Padre Amarna, nem o que viu dentro da caixa, muito menos
sobre a sua presença naquele lugar.
Antes de sair, lançou
Amenotep sobre o galho da mangueira que flutuou como se tivesse asas, deixando
Angélica perplexa.
-Você deve ficar
calada para seu bem Angélica.
-Sim, ficarei, com voz
trêmula respondeu à estranha.
-De hoje em diante
esqueça o que aconteceu aqui, esqueça de Amarna e de mim, não ouse pronunciar
palavra sobre este assunto.
Angélica apenas
concordava meneando a cabeça afirmativamente.
Antes de virar as
costas abriu a caixa e estendeu a delicada mão para Angélica ofertando o livro
antigo que estava lá.
-Isto é para você
mulher.
-Leia.
Angélica olhos fixos
não conseguiu dizer palavra e como numa mágica quando piscou ela desapareceu.
Deixando apenas o rastro do seu perfume.
Na cozinha tomou água e
tentou se recuperar. Pensou que fosse um pesadelo, medrosa olhou pela janela e
avistou Amenotep calmo lambendo a pata em cima do galho.
-Gato esquisito,
crendiospai.
-Estou ficando maluca.
Foi até o quartinho e
confirmou a ausência da caixa .
Em cima da mesa
enquanto pensava em tudo aquilo com o copo d’água na mão viu o livro que a
mulher deixou para ela.
Um ano havia passado e
o crime seguia sem solução, vários indícios, pessoas interrogadas, algumas
suspeitas que restem frustradas e longe estava a polícia de solucionar o caso
do Padre.
Angélica, finalmente
assumiu o concurso que havia feito dois anos antes. Agora era funcionária do
Estado, fazia a limpeza da escola Estadual próxima de sua casa, deixou o emprego
na paróquia e se despediu do Padre Francisco que lamentou perder uma
funcionária tão dedicada como ela.
Nos anos que seguiram aos
fatos relatados aqui, Dona Angélica precisava continuar estudando resolveu
fazer faculdade, no ambiente escolar familiarizou-se com alguns professores
especialmente a professora de História conversava sempre sobre os assuntos
históricos e estava decidida a fazer faculdade de História.
-O que você mais gosta
da História Angélica? Perguntou a professora Suzy.
-Quero estudar tudo
sobre o Egito.
-Que ótimo, eu também
adoro o Egito.
As aulas na faculdade
começariam em breve e Angélica já estava lendo vários livros de História
ansiosa para começar, queria ser professora de História, mesmo com a idade mais
avançada, não se importava muito, desejava estudar e aprender sobre diferentes
culturas.
Depois de tantos anos,
resolveu abrir aquele livro antigo, tinha receio de ser algo mágico, ou talvez
uma maldição, mas precisava saber o do que tratava aquele tão belo tomo.
Em casa, à noite, deu
início à leitura, um tanto temerosa, mas muito determinada.
O Primeiro capítulo
tratava do Faraó Akhenaton e sua esposa a Rainha Nefertiti.
Foi um faraó no Reino
Novo (1550-1070 a.C.). Governou o alto e o baixo Egito. Os faraós acreditavam
na sua ligação sanguínea com o deus Hórus, a autoridade de um faraó era de sumo
sacerdote, e exercia a política interna e externa do Egito.
Quando este faraó
assumiu o trono chamava-se Amenhotep IV e mudou seu nome para Akhenaton quando
fez profundas reformas na política, arte e religião, obrigando o povo egípcio a
seguir certo tipo de monoteísmo e adorar Áton, simbolizado pelo disco solar.
Construiu uma cidade para si e sua
adoração Akhetaton.
Em sua religião não
havia caos, escuridão e morte por isso os deuses outros foram abolidos do seu
reino. A luz do dia era reverenciada em seus templos, o sol era o deus da luz, mas
somente a família real fazia oferendas à Aton.
Os sacerdotes
trabalhavam nos templos administrando os rituais diários de vestir, alimentar e
pôr para dormir as imagens, obtinha rendimento dos templos com oferendas que
eram designadas aos deuses, ficando muitas vezes com parte destas oferendas.
Existiam os sacerdotes
conhecidos como segundos profetas organizavam a economia do templo, os que
garantiam a manutenção e a segurança, administravam oficinas, bibliotecas, porteiros,
zeladores e os sacerdotes das horas responsáveis pela astronomia.
Angélica leu várias
páginas sobre a história de Aquenáton, até chegar à parte que a rainha Nefertiti,
desapareceu da história misteriosamente, também algumas de suas filhas com o
faraó.
Uma marcação fazia
menção a uma terrível peste que teria matado as filhas de Aquenáton e
Nefertiti.
Até ali os escritos do
livro misterioso de Angélica coincidiam com os livros de História, mas uma
página em especial chamou sua atenção, estava no final e tinha anotações com a letra
do padre Amarna, era recente.
Estava assim descrito:
O período Amarna foi
quando Amenófis IV, agora Aquenaton e a rainha Nefertiti, dramaticamente
obrigaram seu povo adorar Áton majoritariamente, em detrimento dos demais
deuses egípcios.
O abandono da tradição
afetou a vida intelectual, que existia em torno da religião. O faraó não se
atentou para a perda de seu território para nações estrangeiras.
O Esplendor de Áton - e o faraó se declarou único interlocutor de
Áton, queria ele eliminar a interferência da classe sacerdotal.
Surgiu entre todos os
renegados a força de um sacerdote que vingou seu povo e lutou para restaurar a
tradição e o culto egípcio aos deuses.
Eu, sacerdote de
Amarna preparei a peste que consumiu suas filhas com a rainha Nefertiti, sumi
com seus ossos e nunca mais foram encontrados vestígios de seus corpos, negando
a elas, filhas da deusa- mãe, a eternidade... Fiz para punir Aquenáton que
influenciado pela sedução da rainha renegou seus deuses.
Nefertiti escapou do
pior castigo, mas suas filhas não.
Sou obrigado a vagar
pelo mundo sem gozar da benção dos deuses da reencarnação em meu corpo original,
sendo perseguido pela amaldiçoada rainha.
Vendo que não tenho
mais tempo e que próximo de pesar meu coração estou, deixo registrado aqui a
verdade sobre ela a cadela real.
Nefertiti está próxima,
e levará meu coração para o julgamento no tribunal de Osíris, finalmente
entregarei meu coração para ser pesado.
Angélica lia aquelas
linhas escritas pelo Padre Amarna incrédula.
Fechou o livro e o
título antes apagado e inelegível, agora em letras douradas finalmente apareceu
frente aos seus olhos.
Nefertiti significa “ A Mais Bela Chegou” .
Fim.
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