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domingo, 29 de setembro de 2019

A Mais Bela Chegou


                            
                                  A MAIS BELA CHEGOU

       O fino mármore das escadas conduzia os visitantes ao interior do luxuoso prédio. Lá fora, do outro lado da rua, o burburinho das crianças, desembarcando do ônibus escolar, anunciava mais uma visita ao museu egípcio.
     Dentro do edifício antigos objetos, réplicas de originais egípcios, roubavam a atenção dos visitantes, entre eles quadros, objetos de uso pessoal de faraós, papiros, jóias e uma grande quantidade de imagens, além da cópia fiel da pedra de Roseta.
       A parte externa, cuidadosamente ornamentada por jardins temáticos, exibia entre outras atrações, os pés da planta do papiro, parada obrigatória para os grupos de estudantes e seus professores de história.
Naquele dia após sua caminhada entre as finas e elegantes estantes de vidro, Padre Amarna, frequentador assíduo do museu, deteve-se por algum tempo observando as crianças, que acabavam de adentrar a sala, ansiosas por conhecerem a múmia que havia em exposição e que veio diretamente das tumbas da terra dos faraós.
     Um pequeno garoto vestindo uniforme escolar aproximou-se do silente padre e estendeu-lhe um aparelho celular afim de que registrasse no aparelho a fotografia dele junto ao busto do Faraó Aquenáton.
     O Padre Amarna sorridente e educado como era seu modo de ser, acertou o foco e eternizou o momento com o esperto e satisfeito menino.         Ao conferir o registro fotográfico à palidez tomou conta de seu rosto, o padre com mãos trêmulas deixou cair o aparelho telefônico e girando o corpo apressado saiu correndo pelo corredor até encontrar a porta larga da saída do prédio.
     Já na rua, o padre assustado buscava nos bolsos do casaco a chave do carro, e atordoado, não lembrava o local exato do estacionamento do veículo.
    Um último olhar para o prédio do museu e avistou na porta o menino segurando o celular e observando seu tempestuoso afastamento.
    A Rua no Bairro Bacacheri, sedia o prédio do museu egípcio, e é uma rua estreita e bem cuidada, com árvores e pássaros, próximo ao museu localiza-se o Parque Bacacheri.
    Padre Amarna costuma frequentar as dependências daquela instituição e também caminhar pelo parque em nome da saúde física e mental que a atividade física proporciona.
   Aquela manhã, Amarna chegou a sua casa (Paroquial), transtornado. Entrou e foi diretamente para o banheiro, deixou a água cair em seu corpo, olhou-se no espelho e temeu pelo que poderia lhe acontecer. Seu corpo revelava um homem saudável de meia idade, habitualmente depilava todo o corpo enquanto tomava banho, e naquele dia cumpriu seu ritual pela segunda vez.
   Dona Angélica, uma senhora quase idosa, como ela mesma dizia, era a funcionária da casa e do padre, cuidava da sua roupa, da limpeza e da alimentação. Também cuidava da vida íntima do padre Amarna, pois sabia que o sacerdócio poderia correr riscos frente ao assédio feminino que o charmoso padre sofria constantemente.
   Vigiava quase tudo, afinal não tinha acesso a tudo que se referia ao sacerdote.
   A paróquia de Amarna era tranquila, suas obras sociais rendiam fama de homem caridoso e líder religioso atuante, há anos que ele havia reformado a Igreja e agora terminado a reforma da casa também. Dona        Angélica estava satisfeita com as mudanças e novos acessos que facilitavam bastante seu trabalho diário.
   O padre após o banho e mais um café, em torno de 11h00min da manhã foi até a sacristia, cuidar de alguns papéis e resolver alguns problemas, antes, porém, passou alguns minutos orando em frente ao altar e à imagem de Jesus Cristo na cruz.
     Após o almoço parecia ainda nervoso e deitou-se um pouco, pediu à       Dona Angélica que não o acordasse como de costume, alegou que tomou um calmante e um analgésico e precisava descansar.
   As 16h00min seu celular já havia tocado inúmeras vezes e Dona  Angélica estava preocupada, mas não queria descumprir as ordens, pois sabia que ele era exigente quanto a isso. Encostou o ouvido na porta e ouviu um barulho de papéis sendo manuseados vigorosamente, sentiu um alívio porque entendeu que ele estava acordado e fazia algo dentro do quarto, neste caso foi para a cozinha fazer o café da tarde e assim teria um pretexto para bater na porta dele em breve.
    O aroma do café fresco se espalhou pela casa no fundo da igreja e deve ter aguçado até os santos no altar, a bandeja na mão com a xícara dele e o adoçante posicionado, partiu Angélica em direção ao quarto.
-   Padre, seu café está pronto. Posso entrar?
   Segundos depois a chave girou na fechadura, a porta lentamente se abriu um vento gelado escapou e correu pelo corredor escuro, deixando a funcionária de cabelo em pé. Junto com o vento um odor estranho, que ela nunca havia sentido antes.
   Lentamente foi aparecendo de trás da porta o rosto do padre, que sorriu e pegou de suas mãos a bandeja.
   -Obrigada Angélica.
   A porta se fechou quase apertando o nariz da curiosa mulher que pulou para trás resmungando:
  -Credo, que “malcriado”, devia pedir desculpas.
   -Malcriada é você, já falei que não tente entrar em meus aposentos sem ser convidada ou sem eu ter deixado a porta aberta para você fazer a limpeza.
   -Hummm, mas pelo que vi a bagunça desses papéis está grande aí dentro, uma última espiadela pelo vão que ainda estava aberto, e a porta se fechou bem a sua frente.
   -Esse cheiro de coisa velha, deve ser tudo papel antigo que ele guarda naquelas gavetas trancadas.
   - Vou recolher a roupa e passar um produto nesse corredor para eliminar esse fedor.
   As 18h00min Dona Angélica, de banho tomado, cabelo penteado e preso num coque e sua sacolinha de crochê, bateu a porta novamente e ouviu a voz do padre:
    -Sim dona Angélica, pode ir. Até amanhã.
    Angélica antes de sair chamou Amenotep o gato, e deu ração, também trocou a água do bichano. Naquela tarde Amenotep estava assustado e não desceu do pé de manga que tinha no quintal da casa paroquial.
   -Que gato esquisito esse, deve estar querendo caçar passarinho para não se importar com a ração, nunca recusou... enfim... Que fique aí.
   Dona Angélica como era de costume, antes de ir embora foi até a nave fazer sua oração do dia. Os afazeres eram tantos diariamente que deixava seu compromisso com o altíssimo por último.
   Ao entrar na Igreja, percebeu uma mulher muito fina e elegante sentada no primeiro banco, bem próxima ao altar, se sentiu meio incomodada pelos trajes que usava, estava saindo do trabalho e encontrou uma senhora tão sofisticada e cheirosa ali, resolveu sentar mais afastada para não ser notada.
   O perfume era bom e alcançava Angélica muitas fileiras atrás, um cabelo preto sedoso e brilhante estava preso na cabeça pequena e delicada. Ao passar por ela notou um resto moreno queimado pelo sol, da praia talvez, e maquiada com muito capricho. O pescoço ornamentado por jóias brilhantes concordavam com os brincos de pedras azuis.
   Angélica pensou:
   -Tanta gente fina e rica e outros com pouco ou quase nada. Mas aqui é a casa do Senhor e todos devem ser acolhidos.
   -Ave Maria, cheia de graça, o senhor... que roupa é aquela? Tecido macio acha que foi feito pra ela.
     -Santa Maria mãe de Deus. que sapato lindo!!! Ai meu Deus perdão, mas eu amo sapatos.
    -Bem que o Senhor poderia me dar uma forcinha na loteria, o Senhor sabe que eu ajudaria muita gente pobre se ganhasse uns milhões.
    - Pai Nosso que estais no céu... Santificado seja.. A cor é linda! Sempre gostei de Tailleur, sou pobre, mas conheço , vi na TV num desfile.
     -Venha a nós o vosso reino, seja feita... vou comprar o tecido e fazer um igual.
     -Amém.
    Depois do ritual da saída da Igreja, passou novamente e discretamente ao lado da mulher chique e elegante e olhou mais uma vez o modelo da roupa, o sapato, a bolsa, as jóias...
    A mulher permanecia imóvel, olhos fechados, concentrada.
    Angélica, desdenhosamente pensou:
    - Vai rezando e agradecendo mesmo, tem “de um tudo”, francamente    Deus eu não entendo esses teus desígnios.
    -Perdão Senhor.
   Foi embora fazendo as contas de quanto ficaria um metro e meio de tecido pra fazer um vestido igual.
    A manhã seguinte estava calor logo cedo, algo que em Curitiba não era comum, mas o verão aquele ano estava com a temperatura mais elevada que a normal Dona Angélica, veio tentando lembrar o nome do fenômeno que o bonitão do Jornal falou que era: Nina La Na, Ninho, enfim. Era um desses.
    Ônibus lotado, mas como ela pegava na saída do primeiro terminal vinha sentada na frente, perto do motorista, e na janela.
     Desceu no terminal e pegou outro para chegar ao trabalho.
    Finalmente chegou, contornou a Igreja e alcançou a porta da cozinha da casa, girou a chave na fechadura e entrou.
   O silêncio aquela manhã estava mais profundo, o comida do gato estava intacta, um misto de cheiros, mofo e perfume.
    Colocou a água para ferver e foi comprar o pão na padaria ao lado.
   Quando voltou passou o café e arrumou a mesa, já eram 08h30minh e o Padre Amarna ainda não tinha aparecido na cozinha.
  Angélica resolveu bater na porta do quarto, dirigiu-se ao escuro corredor e percebeu a porta entreaberta, um raio de luz saia do quarto do padre, achou estranho e diminui o ritmo dos passos.
   Empurrou a porta o e horror tomou conta de seu ser.
   Angélica gritou um grito alucinado e desmaiou.
  Acordou, com um movimento intenso em torno de si, homens fardados, duas mulheres policiais, o assistente do padre, um rapaz da paróquia, duas carolas, um jornalista, câmeras fotográficas, gente falando ao celular, um caos.
  Angélica, levantou a cabeça e seu estômago revirou, teve ânsia ao lembrar a última imagem que viu e caiu sentada novamente ao sofá da sala.
   -Senhora, chama-se Angélica é isso? Perguntou um policial.
   -Sim, mal conseguiu responder.
   - A senhora viu Padre Amarna pela última vez ontem, que horas?
   - Foram tantas perguntas que sua cabeça girava, não consegui parar de recordar aquela cena terrível.
  -Coitadinho do Padre Amarna, chorava enquanto respondia as perguntas.
  -Ele não merecia isso, tão bom que era.
   Uma das carolas veio sentar ao seu lado e consolá-la. Comunicamos as autoridades da Igreja, logo chegarão.
   -Por que fizeram isso? Assalto?
   -Não. Parece que foi algo pior.
   -Dilaceraram seu peito e...
   -Arrancaram seu coração! Falou a senhora Rosa, quase se afogando em lágrimas também.
   -Levaram seu coração!

   Em Curitiba não se falava de outra coisa a consternação foi geral na cidade, todos comentavam, os meios de comunicação noticiavam sem parar o sinistro:
   Faleceu esta noite na capital o Padre Gabriel Moisés Amarna. Conhecido como padre Amarna, era um religioso atuante na sociedade, suas obras assistenciais reconhecidas internacionalmente.
    E as reportagens sobre sua vida “estartavam” em todos os telejornais, rádios, internet e de boca em boca o crime do Padre Amarna foi sendo divulgado.
   Hipóteses eram levantadas, mas devido às circunstâncias do crime, foi afastada possibilidade de um latrocínio.
   A crueldade de ter dilacerado o corpo para retirar do peito o coração do padre era um mistério que a polícia teria que desvendar para dar uma satisfação à sociedade que se encontrava perplexa diante da brutalidade do crime.
   As investigações seguiam e aparentemente nada de novo após quase um mês depois da tragédia.
   Depois que a casa foi liberada pela perícia criminal, Dona Angélica voltou para sua rotina, cuidava de tudo e recebeu o novo pároco. Um rapaz bem jovem recém ordenado padre foi designado para assumir as funções à frente da paróquia.
   Dona Angélica, cuidava para que se sentisse bem, arrumou o outro quarto para o novo Padre, de nome Francisco.
   -Os primeiros dias foram muito difíceis, queixava-se ela para Padre        Francisco da falta do velho amigo, mas aos poucos foi se conformando e acalmando, com as palavras de fé e conforto de padre Francisco.
   -O senhor, Padre Francisco, é uma benção.
   Francisco tinha hábitos diferentes do antigo pároco, não havia entre eles a mesma intimidade e cumplicidade que Angélica, devido ao tempo de trabalho, possuía com Amarna, mesmo o gênio dele era muito diferente, mas Angélica fazia o que podia para agradá-lo.
    Tinha que comparecer à polícia para depor e muitas vezes o fez. Eram tantas perguntas, que os policiais faziam, tantas vezes viraram e reviraram as coisas do padre Amarna, em busca de pistas, muitos maledicentes da cidade sussurravam infâmias sobre o pobre falecido servo de Deus, tudo feria muito o coração de Dona Angélica.
    A família do padre morto recolheu o que lhe era de direito e voltou para o interior carregando a dor e as lembranças de seu ente querido.
O tempo passou quase três meses e ainda nenhuma solução para o caso.
Angélica chegou mais cedo aquela manhã, pretendia fazer uma faxina geral, ainda sentia o cheiro de mofo que vinha do quarto do Padre Amarna.
   Retirou cortinas, colchão, tapetes, abriu os armários, lavou todo o banheiro de cima a baixo, deixou o vento entrar e o sol, que naquele dia, apareceu meio tímido no céu.
   Um raio de sol iluminou o armário que ela havia deixado aberto para ventilar, resolveu passar um produto de limpeza que conservasse o perfume de lavanda dentro da peça, passou em toda a parte externa e na empolgação decidiu lustrar também a parte interna para perfumar a madeira.
   A réstia de sol batia no fundo, e no chão do móvel algo chamou sua atenção, parecia um trincado na madeira, um pedaço quebrado, e sem entender muito bem o que era aquilo tentou com a unha levantar, percebeu que era uma tábua solta e buscou uma ferramenta na dispensa, alavancou a tábua do fundo do armário e percebeu que tinha descoberto algo secreto.
    Uma caixa dourada com uma pequena fechadura e uma chave. Parecia pesada, estava acomodada no fundo falsa do armário embutido, muito bem camuflada, devia estar ali há muito tempo.
   Dona Angélica pensou por alguns segundos: Como nunca percebi isso antes?
   Talvez porque ele não gostava que eu mexesse no seu armário e as poucas vezes que limpei este móvel ele esteve presente palpitando e me atrapalhando a faxina, pensava a curiosa Angélica.
    Mas agora, o que faria com aquele achado?
   -Abro esta caixa ou chamo delegado Adriano? O Dr. Adriano vai gostar de ver isto, pode ser uma pista.
   Por algum tempo ficou sentada no chão com a caixa apoiada nas pernas cruzadas ponderando.
   Por fim resolveu guardar de volta o objeto e pensar melhor no que fazer.
   Os dias se passaram e Amenotep que havia sumido desde aquela noite terrível reapareceu, pediu comida e depois foi para o quarto, como era de costume, e deitou-se em cima da cômoda ao lado do armário.
   Dona Angélica aquele dia sentiu medo do gato, algo estranho em seu olhar lhe causou calafrios. Fechou o quarto meio ressabiada, terminou todo o trabalho e foi para casa.
   Padre Francisco aos poucos foi se adaptando e já tinha até seu séquito carolistíco, como dizia Angélica, as velhinhas carolas que se metiam em tudo e disputavam o grau de importância nas missas e demais eventos paroquiais.
    Dona Angélica, depois de seis meses do ocorrido ainda sentia um medo de entrar na casa sozinha,  e a dor não parava de doer em seu coração, assim explicava a quem perguntasse. A saudade do amigo só aumentava e foi por isso que resolveu buscar a caixa dourada e descobrir o que tinha dentro.
    Teria que esperar Amenotep sair do quarto, porque ele estava cada dia mais vigilante, que gato miserável pensava Dona Angélica.
   -Parece que esse gato vigia a caixa, mas hora ou outra ele sairá tenho fé.
   Dito e feito uma manhã fria, o sol deu o ar da graça na capital paranaense, e Amenotep não amanheceu no quarto, tinha saído sabe Deus para onde.
    -Agora é à hora, vou buscar a caixa dourada do Padre Amarna, pensou Angélica.
   -Aquele gato do “Djanho” não está por aqui. Obrigada Jesus pela cobertura.
   Foi rapidamente até o móvel e com uma chave de fenda deslocou a tábua, cuidadosamente retirou o objeto e fechou novamente o esconderijo. Era hora da missa e o Padre Francisco demoraria para voltar.
   Foi para seu quartinho e trancou a porta.
   Agora vou ver tudo o que ele deixou tão escondido.
  Girou a pequena chave na abertura e aos poucos foi abrindo a caixa dourada, era uma decoração muito delicada, com hieróglifos e desenhos destes que os egípcios faziam nas tumbas e paredes, ela tinha visto isso em algum lugar.
   Aos poucos aquele cheiro horrível de mofo e papéis velhos sufocou sua respiração, tossiu, engasgou, sentiu entrando nas narinas uma espécie de pó fino.
   -Que horror isso!
   Mas aos poucos foi acostumando, com os olhos vermelhos e irritados, ajustou os óculos de leitura e começou manusear o conteúdo da caixa dourada.
   Livros muito antigos, pergaminhos, papiros com desenhos coloridos, escritos com aquelas letras egípcias, eram hieróglifos pensou ela.
   Muitas coisas, que ela não entendia.
   Um papiro no fundo com um desenho chamaram sua atenção.
   -Parece um rei, espera não, lá no Egito chamam faraó, uma vez o Padre Amarna me explicou isso.
    - Os faraós eram “meio que” deuses.
   - Outro papiro!  com o rosto de uma... Seria... faraoa, acho que a mulher é rainha mesmo.
   -Uma rainha! Esta mulher! Meu Deus! Por todos os deuses do Egito!
   -Esta aqui...
   Pensou, pensou... Angélica tentava lembrar onde teria visto aquele rosto antes, sabia que já tinha visto aquela mulher que estava ali desenhada naquele velho papiro.
  Depois de algum tempo, Angélica finalmente lembrou-se de onde conhecia a misteriosa mulher:
    -Santo Deus dos esquecidos, lembrei!!!
   -É a mesma mulher. Esta aqui é aquela que estava na Igreja o dia que o  Padre Amarna morreu!
   -Sim, é ela mesma, tenho certeza.
   -Aquela roupa, aquele sapato, toda chique e linda. O mesmo rosto.
   Dona Angélica, ouviu o arrependimento sussurrar em seu ouvido: Por que você é tão curiosa Angélica?
   - E agora o que farei? Conto para o Dr. Adriano, e se ele achar que estou escondendo mais alguma coisa?
   - Que situação!
   Por hora vou levar esta caixa comigo, depois penso melhor no que fazer.
   Aquele dia foi para casa um pouco mais cedo, pelo caminho teve a impressão de ver Amenotep pelo menos umas três vezes em locais distantes um do outro em curto espaço de tempo.
   -Confessa Angélica: Você está com medo. Pensava no trajeto para casa.
Pegou o celular e ligou para sua amiga Lúcia pediu a ela para dormir em sua casa aquela noite.
   Lúcia disse que não poderia ir, mas que Angélica fosse dormir na casa dela, afinal tinha que cuidar do netinho para sua filha trabalhar.
   Angélica concordou e no caminho trocou de ônibus, mudou o rumo e foi para a casa de Lúcia.
   Passaram a noite conversando, mas Angélica não falou nada sobre o que encontrou e nem sobre seu medo.
   No dia seguinte voltou ao trabalho, Padre Francisco já esperava com o café pronto e já tinha feito seus exercícios matinais antes de ir realizar a missa.
    -O que há Dona Angélica, está doente?
   -Não padre, estou bem, apenas um pouco cansada hoje, dormi mal.
  -Eu também, esse gato da senhora, passou a noite fazendo barulhos estranhos do lado de fora da casa, parecia algo assustador, cheguei abrir a janela e ralhar com ele.
   -Depois desapareceu e não o vi hoje.
   -Graças a Deus!
   - O que disse Dona Angélica?
   - Nada não padre, graças a Deus agora está tudo calmo.
   Angélica, tremendo de medo de e supondo ter mexido em alguma coisa que parecia perigosa e estranha, tomou café com um olho na porta outro na caixa, temia que o gato aparecesse e a atacasse.
    -Esse peste deste gato parece que sabe de alguma coisa que eu não sei, parece que vigia esta caixa.
   -Acho que o medo é que está produzindo estas besteiras na minha cabeça, vou trabalhar.
   -Começou a limpeza do quintal e debaixo do pé de manga quando se virou para apanhar o saco de lixo a fim de acomodar as folhas que caíam da árvore, se deparou com a mulher misteriosa bem à sua frente e Amenotep no colo.
   Com o susto derrubou o balde, a vassoura e escorregou no saco plástico do lixo.
   O coração de Angélica batia descompassados, os olhos arregalados e a respiração acelerada.
Amenotep não parecia ameaçador como antes, estava acomodado nos braços da jovem e bela mulher.
   -Quem é a senhora? Indagou Angélica.
   -Quer alguma coisa?
   -Posso ajudar? Perguntou uma Angélica atrapalhada e ofegante.
   -Pode e deve.
   -Vim buscar algo que me pertence e que está com você.
   Não entendo o que diz.
   -Entende sim, vá buscar a caixa que retirou dali do quarto dele.
   A voz era quase metálica, com um jeito de falar muito estranho, um sotaque que Angélica nunca ouviu.
   Gaguejando, a única coisa que ousou falar foi:
   -Vou buscar sim senhora, desculpa.
  Foi até o quarto rezando para que o Padre Francisco milagrosamente aparecesse ali e aquela mulher assustadora sumisse, apanhou a caixa dentro da sacola e tremendo voltou ao quintal.
  A mulher tirou os óculos escuros e deixou a mostra um par de olhos misteriosos, nem parecia gente de verdade, eram belos, mas assustadores, as mãos delicadas, os gestos precisos e como num passe de mágica Angélica já não tinha mais em suas mãos a misteriosa caixa.
   Com aquela voz marcante mandou que Angélica permanecesse calada e não falasse a ninguém o que encontrou no quarto do Padre Amarna, nem o que viu dentro da caixa, muito menos sobre a sua presença naquele lugar.
   Antes de sair, lançou Amenotep sobre o galho da mangueira que flutuou como se tivesse asas, deixando Angélica perplexa.
   -Você deve ficar calada para seu bem Angélica.
   -Sim, ficarei, com voz trêmula respondeu à estranha.
   -De hoje em diante esqueça o que aconteceu aqui, esqueça de Amarna e de mim, não ouse pronunciar palavra sobre este assunto.
    Angélica apenas concordava meneando a cabeça afirmativamente.
   Antes de virar as costas abriu a caixa e estendeu a delicada mão para    Angélica ofertando o livro antigo que estava lá.
   -Isto é para você mulher.
    -Leia.
   Angélica olhos fixos não conseguiu dizer palavra e como numa mágica quando piscou ela desapareceu. Deixando apenas o rastro do seu perfume.
   Na cozinha tomou água e tentou se recuperar. Pensou que fosse um pesadelo, medrosa olhou pela janela e avistou Amenotep calmo lambendo a pata em cima do galho.
   -Gato esquisito, crendiospai.
   -Estou ficando maluca.
   Foi até o quartinho e confirmou a ausência da caixa .
   Em cima da mesa enquanto pensava em tudo aquilo com o copo d’água na mão viu o livro que a mulher deixou para ela.
   Um ano havia passado e o crime seguia sem solução, vários indícios, pessoas interrogadas, algumas suspeitas que restem frustradas e longe estava a polícia de solucionar o caso do Padre.
Angélica, finalmente assumiu o concurso que havia feito dois anos antes.    Agora era funcionária do Estado, fazia a limpeza da escola Estadual próxima de sua casa, deixou o emprego na paróquia e se despediu do Padre Francisco que lamentou perder uma funcionária tão dedicada como ela.
  Nos anos que seguiram aos fatos relatados aqui, Dona Angélica precisava continuar estudando resolveu fazer faculdade, no ambiente escolar familiarizou-se com alguns professores especialmente a professora de História conversava sempre sobre os assuntos históricos e estava decidida a fazer faculdade de História.
  -O que você mais gosta da História Angélica? Perguntou a professora Suzy.
   -Quero estudar tudo sobre o Egito.
  -Que ótimo, eu também adoro o Egito.
  As aulas na faculdade começariam em breve e Angélica já estava lendo vários livros de História ansiosa para começar, queria ser professora de História, mesmo com a idade mais avançada, não se importava muito, desejava estudar e aprender sobre diferentes culturas.
   Depois de tantos anos, resolveu abrir aquele livro antigo, tinha receio de ser algo mágico, ou talvez uma maldição, mas precisava saber o do que tratava aquele tão belo tomo.
   Em casa, à noite, deu início à leitura, um tanto temerosa, mas muito determinada.
   O Primeiro capítulo tratava do Faraó Akhenaton e sua esposa a Rainha Nefertiti.
   Foi um faraó no Reino Novo (1550-1070 a.C.). Governou o alto e o baixo Egito. Os faraós acreditavam na sua ligação sanguínea com o deus Hórus, a autoridade de um faraó era de sumo sacerdote, e exercia a política interna e externa do Egito.
   Quando este faraó assumiu o trono chamava-se Amenhotep IV e mudou seu nome para Akhenaton quando fez profundas reformas na política, arte e religião, obrigando o povo egípcio a seguir certo tipo de monoteísmo e adorar Áton, simbolizado pelo disco solar. Construiu  uma cidade para si e sua adoração Akhetaton.
   Em sua religião não havia caos, escuridão e morte por isso os deuses outros foram abolidos do seu reino. A luz do dia era reverenciada em seus templos, o sol era o deus da luz, mas somente a família real fazia oferendas à Aton.
    Os sacerdotes trabalhavam nos templos administrando os rituais diários de vestir, alimentar e pôr para dormir as imagens, obtinha rendimento dos templos com oferendas que eram designadas aos deuses, ficando muitas vezes com parte destas oferendas.
  Existiam os sacerdotes conhecidos como segundos profetas organizavam a economia do templo, os que garantiam a manutenção e a segurança, administravam oficinas, bibliotecas, porteiros, zeladores e os sacerdotes das horas responsáveis pela astronomia.
   Angélica leu várias páginas sobre a história de Aquenáton, até chegar à parte que a rainha Nefertiti, desapareceu da história misteriosamente, também algumas de suas filhas com o faraó.
   Uma marcação fazia menção a uma terrível peste que teria matado as filhas de Aquenáton e Nefertiti.
  Até ali os escritos do livro misterioso de Angélica coincidiam com os livros de História, mas uma página em especial chamou sua atenção, estava no final e tinha anotações com a letra do padre Amarna, era recente.
   Estava assim descrito:
   O período Amarna foi quando Amenófis IV, agora Aquenaton e a rainha Nefertiti, dramaticamente obrigaram seu povo adorar Áton majoritariamente, em detrimento dos demais deuses egípcios.
   O abandono da tradição afetou a vida intelectual, que existia em torno da religião. O faraó não se atentou para a perda de seu território para nações estrangeiras.
   O Esplendor de Áton -  e o faraó se declarou único interlocutor de Áton, queria ele eliminar a interferência da classe sacerdotal.
Surgiu entre todos os renegados a força de um sacerdote que vingou seu povo e lutou para restaurar a tradição e o culto egípcio aos deuses.
   Eu, sacerdote de Amarna preparei a peste que consumiu suas filhas com a rainha Nefertiti, sumi com seus ossos e nunca mais foram encontrados vestígios de seus corpos, negando a elas, filhas da deusa- mãe, a eternidade... Fiz para punir Aquenáton que influenciado pela sedução da rainha renegou seus deuses.
   Nefertiti escapou do pior castigo, mas suas filhas não.
   Sou obrigado a vagar pelo mundo sem gozar da benção dos deuses da reencarnação em meu corpo original, sendo perseguido pela amaldiçoada rainha.
  Vendo que não tenho mais tempo e que próximo de pesar meu coração estou, deixo registrado aqui a verdade sobre ela a cadela real.
Nefertiti está próxima, e levará meu coração para o julgamento no tribunal de Osíris, finalmente entregarei meu coração para ser pesado.
    Angélica lia aquelas linhas escritas pelo Padre Amarna incrédula.
   Fechou o livro e o título antes apagado e inelegível, agora em letras douradas finalmente apareceu frente aos seus olhos.
 Nefertiti  significa “ A Mais Bela Chegou” .

Fim.
Ana Schuster   -   Copyright © 2019 Direitos Reservados





sábado, 1 de setembro de 2018

Lançamento do meu primeiro Romance - Casulo de Carmen 15/09/2018  das 14:h00 às 18:h00 no Paço da Liberdade em Curitiba.



A formação da identidade social do jovem brasileiro durante o período da ditadura militar, e sua relação com o movimento da contracultura mundial, guardou diferenças e semelhanças nos países europeus e americanos, especialmente com relação às identidades envolvidas nos processos revolucionários, que sacudiam o mundo na década de 1970. Por tratar-se de jovens e de sua formação nesta fase da vida, quando naturalmente surge o espírito contestatório, é necessário o esclarecimento acerca das posições sociais ocupadas pelos sujeitos aqui estudados. No Brasil, o movimento teve inicialmente relação com a música, de grupos como os Novos Baianos, os Mutantes, Gilberto Gil e Caetano Veloso, além do ícone da contracultura Raul Seixas e suas músicas de protestos e de apologia às drogas. Essa influência dos hippies sobre o Tropicalismo gerou discordâncias acerca do real engajamento dos cantores da tropicália com os ideais da contracultura mundial, o fato é que acabaram estabelecendo rivalidades com os representantes da Jovem Guarda e da MPB.